Tratamento impessoal para com falantes do espanhol andino (Bolívia, Peru e norte do Chile)

Quando falamos uma língua que ainda não dominamos completamente é quase impossível não cometer erros, porém uma preocupação constante em quem aprende um novo idioma é não cometer erros que possam soar ofensivos.

Por esta razão escrevo sobre um detalhe que não se aprende normalmente nas escolas de idiomas, a menos que o professor conheça a fundo a cultura andina, os idiomas originais da região (ainda falados por milhões de pessoas, sobretudo nas zonas rurais) e a influencia destes no espanhol falado ali .

A região hoje ocupada pela Bolívia e pelo Peru foi a principal parte do império Inca, cujo idioma oficial era o Quéchua, em parte do território também se falava o Aimará. Estes dois idiomas possuem pronomes específicos para formas pessoais e impessoais, seria uma falta grave usar termos impessoais para referir-se a pessoas. Pois bem, talvez você se pergunte: mas essa não é uma página sobre o idioma espanhol?

Pois é, ainda que os colonizadores tenham estabelecido o idioma espanhol, boa parte da população, mesmo os que não dominam os idiomas Aimará e Quéchua, manteve a forma de pensar dos seus antepassados e encontrou no idioma espanhol recursos para isto. Além desta questão do tratamento, isso se reflete na conjugação de verbos no tempo futuro, mais especificamente para falantes do Aimará que possui uma lógica trivalente e, para não confundir, é melhor deixar este assunto para outra matéria.

Já presenciei cenas em que um pai ficou profundamente ofendido com a pergunta: ¿Éste es su hijo? Qual é o problema com a pergunta? O tratamento impessoal. O pai esperava ouvir: ¿Él es su hijo? A seu ver, o rapaz estava desfazendo de seu filho.

O mesmo aconteceria com perguntas como:

  • ¿Ésta es su madre?
  • ¿Ésas son sus sobrinas?

Exemplifiquei com perguntas, mas com frases afirmativas vale a mesma regra.

Não estaria errado, ou não soaria mal dizer afirmativa ou interrogativamente: Esa señora es su madre, ese niño es su hijo, esta muchacha es su hija etc.

A diferença é que você utilizando um substantivo suaviza a expressão, pois o pronome demonstrativo deixa de fazer as vezes de sujeito na oração e volta a ser só um demonstrativo.

Agora para explicar o porquê da diferença teríamos que aprofundar mais na estrutura dos idiomas originais, mas creio que isso não é necessário.

O importante é que você já sabe que, ao viajar para Bolívia, Peru ou norte do Chile, ou ao conversar com pessoas dessas regiões, não use este, esta, ese, esa, estos, estas, esos e esas como sujeito em uma oração referindo-se a um ser humano.

¡Hasta!

Sobre o Autor: Luis Henrique é professor de espanhol e atua em projetos voluntários junto a comunidades de imigrantes ‘hispanohablantes’. É apaixonado pelo idioma e pela cultura dos países que falam espanhol.

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3 comentários

  • 15/11/11  
    Paulo da Silva diz: 1

    Tenho a impressão que a flexão do verbo na terceira pessoa do singular não seja a mais adequada, o qual acompanha o pronome “su”.

    Normalmente, nos países mencionados, ao nos dirigir-nos diretamente ao interlocutor, usamos “tu”, segunda pessoa, ao contrário do argentino que, cotidianamente, utiliza o “vos” com o verbo na terceira pessoa no tratamento coloquial.

    Formalmente, aí sim, com a utilização do “usted”, o verbo vai para a terceira pessoa, como em qualquer país de língua espanhola.

    Estando eu errado, críticas, por favor.

    De resto, bela observação.

    • 15/11/11  
      Luis Henrique diz:

      Sim, sua observação está correta Paulo, em contextos informais, o correto seria o uso do ‘tu’, porém a situação que eu relatei foi em uma conversa de apresentação, entre o falante brasileiro que estava se apresentando a um boliviano mais velho que ele, a ocasião exigia um tratamento formal, com isso acabei usando exemplos na mesma linha.
      Mas, obrigado pela observação.

  • 18/11/11  
    Wagner Peixoto diz: 2

    Muchisimo interesante! Enhorabuena por el post